quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Esse olhar atravessado

Nada passa nesta cidade. Tudo é sempre igual: as pedras da rua, a fachada das casas, as pontes, os chafarizes, as cruzes, os oratórios... Do Caquende até o alto das Cabeças, as caras são as mesmas, desde o tempo do Alferes. Só no Pilar vejo gente estranha: duas ou três pessoas chamam a atenção de todo mundo. Nas procissões, qualquer cara nova é olhada de través. E, agora, sobra, para nós também, esse olhar atravessado. Tem gente que bem que gostaria de me ver enforcada, na mesma corda que enforcou o Alferes. Como essas Pilatas.

QUEIROZ, Maria José de. Joaquina, filha do Tiradentes. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 18-19.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PEDRA

Concentração de espera
sem partida nem regresso.
Imobilidade resignada
de grave presença
no espaço habitado,
imanência estável,
inviolada.
Além, o mundo:
mistério ocluso,
vedado.
Densidade enclausurada
na intimidade do núcleo,
intacto.
Repouso obrigado,
alheio a todo gesto e parlamento,
ato falhado.
Harmonia compacta,
indiferente a ritmo e melodia,
fermata prolongada.
Acorde perfeito maior,
sustentado.
Pausa de eterno silêncio,
descanso demorado.
Ilha:
cercado de terra,
por todos os lados.
O sonho da pedra:
fantasia reduzida
a verbo limitativo
e modo infinito
- estar.
Ontem, hoje, amanhã,
encerrados no lugar sempre
de coeso e definitivo durar.

Interlaken, 1971. 

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra Editora, 1974. p. 41-42.

domingo, 13 de agosto de 2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Maria José de Queiroz entre as 150 mulheres que estão fazendo literatura hoje no Brasil


150 mulheres que estão fazendo literatura hoje no Brasil



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Homenagem a Maria José de Queiroz na Academia Mineira de Letras, 18 de abril de 2017

A Academia Mineira de Letras realiza na terça-feira, dia 18, às 19h30, sessão em homenagem à acadêmica Maria José de Queiroz, ocupante da cadeira de numero quarenta. Vivendo atualmente em Paris, como professora da Sorbonne, ela virá a Belo Horizonte especialmente para a solenidade. O evento faz parte do programa Universidade Livre, realizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Instituto Unimed-BH, por meio do incentivo fiscal de mais 4,5 mil médicos cooperados e colaboradores. A AML integra o Circuito Liberdade.
Maria José de Queiroz nasceu em Belo Horizonte, em 1934. É doutora em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais e autora das obras “Joaquina, filha de Tiradentes” (recentemente adaptada para a televisão), “Como me contaram”, “Ano novo, vida nova”, “Homem de sete partidas”, entre outros romances e obras poéticas.
Aos 26 anos, se tornou a mais jovem catedrática do país e, por concurso, substituiu o professor Eduardo Frieiro na UFMG. Em 1953, começou a colaborar em jornais em Minas Gerais e hoje escreve para importantes periódicos, inclusive o francês Le Monde. Possui uma longa carreira como professora convidada em importantes universidades americanas e europeias: Indiana, Harvard, Berkeley, Sorbonne, Lille, Bordeaux, Ainx-en-Provence, Bonn, e Colônia.
No evento, Maria José de Queiroz será saudada pela presidente da Academia Mineira de Letras, acadêmica Elizabeth Rennó, pelo secretário de Estado da Cultura, acadêmico Ângelo Oswaldo de Araujo Santos, e apresentada por uma das mais importantes estudiosas de sua obra, a professora Lyslei Nascimento.
Lyslei Nascimento é professora de literatura na Faculdade de Letras da UFMG. É mestre em Literatura Brasileira, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-doutora pela Universidade de Buenos Aires e pela Universidade de São Paulo. Atualmente é subcoordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários e Coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG. Pesquisadora do CNPq e da Fapemig, publicou, entre outros títulos, Borges e outros rabinos, 2009, pela Editora da UFMG.
Em dissertação apresentada ao curso de Pós-graduação em Letras e intitulada “Exercício de fiandeira: Joaquina, filha de Tiradentes, de Maria José de Queiroz”, Lyslei  faz uma análise do mencionado romance de Maria José, que abrange os fatos históricos do século XVIII e a construção da vida ficcional da filha do herói da Inconfidência.
Ainda na sessão, será exibido trecho de documentário sobre Maria José de Queiroz.


SERVIÇO:
Sessão em homenagem à acadêmica Maria José de Queiroz
Data: 18 de abril
Horário: 19h30.
Local: Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466 – Lourdes – BH/MG).
Entrada gratuita.
academiamineiradeletras.org.br

domingo, 19 de março de 2017

Humor do sofrimento

Prometeu (1610-1611), Peter Paul Rubens

Num ensaio recente, "Dostoievski, a escrita do sofrimento e do perdão", Julia Kristeva aprofunda o tema freudiano da impulsão à morte" e do "masoquismo primário", ausentes dos estudos de Freud sobre o autor de O Idiota. Em vez de transformar-se em impulsões eróticas, a "impulsão à morte" se resolve em Dostoievski, segundo Kristeva, num "humor do sofrimento". À borda da ruptura entre o Eu e o "outro", antes mesmo que a ruptura se verifique, manifesta-se o "sofrimento dostoievskiano". E a verdadeira volúpia que experimenta nada tem a ver, aos olhos da ensaísta, com a melancolia e a impulsão do abismo que ressuma das páginas de Gérard de Nerval. 

Convenha-se: a exaltação desse sentimento, apontado apenas nos grandes místicos - para os quais a dor é meio eficaz para alcançar a "via unitiva"- leva à jubilação gozosa.

QUEIROZ, Maria José de. A literatura alucinada: do êxtase das drogas à vertigem da loucura. Rio de Janeiro: Atheneu Cultura, 1990. p. 87.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Os 31 livros de Maria José de Queiroz


Fotografia dos 31 livros de Maria José de Queiroz, na palestra na Faculdade de Letras da UFMG.
O Brasil não conhece o Brasil.